O antes e o depois do open banking

De acordo com Maxnaun Gutierrez, sócio e head de produtos pessoa física do C6 Bank, o aumento no número de fintechs e a aprovação pelo Banco Central do Sistema Open Banking contribuirão para a descentralização do setor financeiro

Luiz Gustavo Pacete de Lima

Criado em março de 2018 por ex-executivos do BTG Pactual, o banco digital C6 Bank passou a operar oficialmente em janeiro de 2019. No ano de seu surgimento, de acordo com o Radar FintechLab, existiam 453 startups financeiras em operação no Brasil, as chamadas fintechs. Um crescimento de 23% em relação a 2017, índice que vem se mantendo na casa dos dois dígitos. No ano passado, já havia 742 empresas financeiras com soluções digitais. Com o objetivo inicial de concorrer diretamente com plataformas como Nubank, Neon, Inter e Original, o C6 Bank vem investindo em comunicação e parcerias nos últimos meses com foco em construir marca e ampliar a curva de adoção de usuários. A mais recente, em julho, foi com a TIM. De acordo com Maxnaun Gutierrez, sócio e head de produtos pessoa física do C6 Bank, o aumento no número de fintechs, a entrada de players como o WhatsApp e a aprovação pelo Banco Central do Sistema Open Banking contribuirão para a descentralização do setor financeiro.

Meio & Mensagem — Quais são os desafios em atuar em um segmento que possui cada vez mais concorrentes?
Maxnaun Gutierrez — A competição é muito positiva para que aconteça no Brasil o aumento de penetração de serviços financeiros, como crédito, investimentos e seguros. Sabemos que essa é uma questão importante para apoiar tanto o bem-estar das famílias quanto o desenvolvimento das pequenas empresas. Como o mercado brasileiro ainda é muito concentrado, há bastante espaço para competidores. No C6, o objetivo de diferenciação é completar e ampliar nossa oferta de produtos. Desde o ano passado, já fizemos 64 atualizações do nosso app, com novas funcionalidades e aperfeiçoamentos constantes na experiência do usuário. O próximo desafio que precisamos vencer é completar a oferta de produtos para pequenas e médias empresas. Já temos oferta de maquininha para captura de transações com cartões (C6 Pay), conta corrente, cartão C6 Business, alguns pilotos com oferta de crédito, seguros, consórcio e produtos de câmbio e, por fim, também estamos focados na construção da nossa plataforma de investimentos.

M&M — Players de outras indústrias também estão entrando no segmento financeiro, como o WhatsApp. Qual é o impacto dessas movimentações?
Gutierrez — Temos uma visão pró-competição no mercado. Uma tese que move o C6 Bank é a do rebundling, um reagrupamento de serviços financeiros em um mesmo lugar. Isso porque acreditamos que o mercado de aplicativos financeiros passará por uma consolidação. Houve uma especialização de serviços com aplicativos específicos para resolver problemas pontuais dos clientes como cartão de crédito, investimentos, conta corrente e seguros. Mas é improvável que o cliente queira ter dez aplicativos no celular, um para cada necessidade. Sairá na frente quem conseguir reagrupar os serviços com uma oferta completa de produtos, em condições competitivas e com uma boa experiência do usuário.

“O Open Banking tem gerado discussões saudáveis sobre a relação entre instituições e consumidores. É um conceito que traz a noção de abertura de negócios antes restrita ao mundo dos apps ou das grandes empresas de tecnologia”

M&M — De que maneira o Sistema Open Banking, a ser aprovado pelo Banco Central, impactará o segmento?
Gutierrez — O Open Banking tem gerado discussões saudáveis sobre a relação entre instituições financeiras e consumidores. É um conceito novo que traz uma noção de abertura de negócios antes restrita ao mundo dos apps ou das grandes empresas de tecnologia. Sem dúvida, representa uma quebra de paradigma dar ao cliente a possibilidade de ele compartilhar seus dados bancários com as instituições de sua preferência. Esse novo cenário, quando regulamentado pelo Banco Central, trará oportunidades para o consumidor, como a agilidade na contratação de serviços financeiros prestados por instituições diferentes ou a customização de produtos. Os desafios, naturalmente, existem. Do lado das organizações já estabelecidas, há o preparo para lidar com a abertura de informações que sempre foram mantidas dentro de casa. Do lado do consumidor, há o desafio de entender os serviços que ele pode obter nesse novo contexto. Muito se fala se o Open Banking pode migrar o histórico de crédito ou da portabilidade de crédito. Na minha visão, uma das maiores barreiras que se tem na migração por completo de um banco para outro é a questão transacional.

M&M — Quais tendências em relação ao segmento de finanças você enxerga nos médio e longo prazos? Quais serão as principais discussões em termos de tecnologia?
Gutierrez — O que enxergamos é que no mundo inteiro está havendo um deslocamento de esforços para entender o consumidor final. Na bolsa americana, por exemplo, presenciamos um deslocamento da importância das empresas de tecnologias. O que as empresas de tecnologia fizeram, de forma simplista, é que entenderam e se ajustaram à demanda do consumidor. O mesmo vale para o setor de finanças. Em mercados concentrados, esse ajuste às mudanças do consumidor ocorre de maneira mais lenta. No Brasil, foi necessário que o regulador flexibilizasse as regras para que a competição acontecesse. A competição mais acirrada está acontecendo e temos muito pela frente ainda. O Brasil tem um mercado muito grande. O que vemos é que cada vez mais existirá a necessidade de mudar o foco de uma empresa voltada a produtos para uma empresa com capacidade de atender as necessidades do consumidor na velocidade com que essas necessidades mudam.

M&M — Com qual propósito o C6 se sustenta neste cenário?
Gutierrez — O C6 Bank surgiu em um contexto de frustração dos consumidores com relação à experiência atual com serviços financeiros. E, diante deste contexto, nossa proposta é ser um banco completo de baixo custo, com uma comunicação transparente com o cliente, uma ótima experiência tanto no aplicativo quanto nos canais de atendimento e cada vez mais personalização em produtos. Para a distribuição de produtos para pessoas jurídicas, contamos com uma rede de distribuição que oferece presencialmente os produtos do banco. Temos mais de 300 consultores empresariais aptos a vender produtos para empresas espalhadas pelo País. Em outubro de 2019, uma aquisição do C6 Bank (que comprou a assessoria de seguros Som.us) ampliou muito a capacidade de distribuição dos produtos para pessoas jurídicas. A Som.us, que presta consultoria em gestão de riscos e seguros, é um dos maiores canais de distribuição de seguros e resseguros do Brasil, com dez escritórios nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Goiás e Distrito Federal.

M&M — O C6 fez investimentos frequentes em comunicação no último ano. Qual é a importância da construção da marca e como equilibrar branding e performance?
Gutierrez — Nossos esforços vão na direção de construir uma marca aspiracional. Estamos trabalhando para posicionar o C6 Bank como uma marca de estilo de vida que entra na vida das pessoas de forma orgânica. Para isso, patrocinamos corridas de rua, feira de moda, festas e shows como o da Norah Jones e da Taylor Swift. No primeiro ano do banco, diversificamos nossos investimentos para contemplar essa construção de marca e os esforços em performance. Esses dois movimentos acontecem juntos. Acompanhamos esse equilíbrio hora a hora e constantemente ajustamos os nossos números de acordo com os resultados. Nos próximos meses, esperamos uma exposição ainda mais intensa da nossa marca, em razão da nossa parceria com a TIM para integrar serviços financeiros e de telecomunicações.

M&M — Quais foram os impactos da pandemia na curva de adoção de novos clientes do C6
Gutierrez — Notamos um aumento considerável no uso de produtos financeiros digitais durante a pandemia. De janeiro a maio deste ano, dobramos a quantidade de contas abertas no C6 Bank — de 1 milhão, em 31 de dezembro de 2019, para 2 milhões, em maio deste ano. Também notamos um uso mais intensivo do banco. Em média, houve um crescimento de 30% no número de vezes que cada cliente abre nosso aplicativo. Encomendamos uma pesquisa ao Ibope Inteligência que mostrou uma mudança no perfil do uso de serviços financeiros. Um quarto dos brasileiros começou a prestar mais atenção em tarifas e taxas cobradas pelas instituições financeiras e 26% relatam que passaram a conferir o saldo da conta e o desempenho das aplicações com mais frequência após o início da crise. Essa pesquisa também mostrou que 43% das pessoas deixaram de frequentar agências bancárias e 46% afirmam que têm utilizado produtos financeiros digitais.

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